Cantos Gregorianos - Salmos

sábado, 14 de junho de 2014

Parusia - A Segunda Vinda de Cristo.

Escrito por João Paulo II  


“Não devemos esquecer que o “éschaton”, isto é, o evento final, entendido de maneira cristã, não é só uma meta posta no futuro mas uma realidade já iniciada com a vinda histórica de Cristo... Sabemos, por outro lado, que as imagens apocalípticas do discurso escatológico [de Jesus, Mt 26, 64] a propósito do fim de todas as coisas, devem ser interpretadas na sua intensidade simbólica. Elas exprimem a precariedade do mundo e o soberano poder de Cristo, em cujas mãos está posto o destino da humanidade. A história caminha rumo à sua meta, mas Cristo não indicou qualquer prazo cronológico. Ilusórias e desviantes são, portanto, as tentativas de previsão do fim do mundo. Cristo só nos assegurou que o fim não acontecerá antes que a Sua obra salvífica tenha alcançado uma dimensão universal através do anúncio do Evangelho:
“Esta Boa Nova do Reino será proclamada em todo o mundo para dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim” (Mt 24,14). Jesus diz estas palavras aos discípulos preocupados por conhecer a data do fim do mundo. Eles teriam sido tentados a pensar numa data próxima. Jesus faz com que conheçam que muitos eventos e cataclismos devem acontecer antes e serão apenas “o princípio das dores” (Mc 13, 8). Portanto, como diz Paulo, toda a criação “geme e sofre nas dores do parto” aguardando com impaciência a revelação dos filhos de Deus (cf.Rom 8,19´20). A obra evangelizadora do mundo comporta a profunda transformação das pessoas humanas sob a influência da graça de Cristo. Paulo indicou a finalidade da história no desígnio do Pai de “reunir sob a chefia de Cristo todas as coisas que há no Céu e na Terra” (Ef 1, 10). Cristo é o centro do universo que atrai todos a Si para lhes comunicar a abundância da graça e da vida eterna. A Jesus o Pai deu “o poder de julgar porque é o Filho do Homem” (Jo 5, 27).

Se o juízo prevê obviamente a possibilidade da condenação, ele contudo é confiado Àquele que é “Filho do Homem”, isto é, a uma pessoa plena de compreensão e solidária com a condição humana. Cristo é um juíz divino com um coração humano, um juíz que deseja dar a vida. Só o enraizamento obstinado no mal pode impedir´lhe fazer este dom, pelo qual Ele não hesitou enfrentar a morte.”

Eucaristia é Parusia.

A Eucaristia é parusia (ou parúsia) – presença real de Cristo sob as espécies eucarísticas – presença sacramental. Na Eucaristia já acontece a vinda de Jesus, porém, não na Sua segunda e definitiva vinda. Assim parusia significa vinda, chegada ou advento.
Antigamente usava-se o termo “parusia” para se descrever a visita de um rei ou imperador. Por isso, a Eucaristia é a vinda do nosso Rei para entrar na vida dos Seus servos. Cristo nos visita na Eucaristia. Foi o melhor e mais simples meio de todos terem acesso a Deus. A parusia é a presença no Senhor Glorioso, Real e Verdadeiro.
Sabemos que haverá a parusia no final dos tempos, mas também sabemos que ela acontece em cada Santa Missa celebrada. Foi o próprio Jesus que estabeleceu a Eucaristia como um acontecimento escatológico – parusia – a vinda do Rei e do seu Reino, sendo que isso acontece em cada Celebração Eucarística.
“A Parusia é o mais alto grau de intensificação e de satisfação da liturgia. E a liturgia é parusia. Cada Eucaristia é Parusia, vinda do Senhor; e, ainda, a Eucaristia é, inclusive, o mais verdadeiro desejo ardente de que Ele, por fim, revelaria a Sua Glória escondida” (Cardeal Joseph Ratzinger – Bento XVI).
A Igreja, que é o Reino, o Reino onde o Rei reina na Eucaristia. Ela clama todos os dias: Vinde, Senhor Jesus – pois estamos comprometidos com a liturgia da vinda de Jesus, com Sua presença real, a Sua parusia.
“O Reino de Deus vem desde a Santa Ceia e na Eucaristia, Ele está no meio de nós. O Reino virá na glória quando Cristo restituir a seu Pai. A Igreja sabe que, desde agora, o Senhor vem em sua Eucaristia, e que ali Ele está, no meio de nós. Contudo, esta presença é velada” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2816 e 1404).

A Eucaristia consiste em duas realidades: a terrena e a celeste. Por isso, enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus no fim dos tempos, vamos recebê-Lo com ardor a vinda d’Ele em cada Eucaristia para nos preparar para Sua vinda definitiva.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Fisionomia Espiritual de São Bruno

Tentar a desenhar em poucas linhas o retrato espiritual de um santo é certamente difícil, por isso vamos nos limitar a apontar brevemente as principais características da fisionomia espiritual de São Bruno, tomando como base especialmente duas de suas cartas escritas num período, e preservado para dias: uma dirigida ao seu amigo Rodolfo Verde e outro para os irmãos do eremitério da Cartuxa francesa. Esses dois escritos preciosos revelar sua alma em sua plena maturidade, como está escrito nos últimos anos de sua vida.Primeiro de tudo, a raiz da vida espiritual de Bruno há um amor ardente por Deus e exclusivo. É por amor e em uma onda de amor que Bruno e seus companheiros fizeram um voto, no jardim de Adão, a abraçar a vida monástica: “Divina, ferventes de amor”.A partir deste momento, a busca exclusiva de Deus será o objectivo prosseguido por Bruno firmemente, será o tema de toda a sua vida, por isso deixe tudo que o pensamento pode impedi-lo em seu caminho.Isso explica a sua escolha para a solidão que ele vê como o lugar privilegiado de amor, onde a alma pode se expandir sem obstáculos, onde “você comprar aquele olhar de serenidade que dói amar o Esposo celestial”, e você vive esperando por Deus “para abrir imediatamente é só bater.” A solidão é, portanto, intimamente ligado ao amor para Bruno: em que o coração compra “pura e brilhante que o olho que vê a Deus”, é um lugar de contemplação, da bem-aventurança evangélica dos puros de coração. O Bruno é, assim, o modelo da “virgindade espiritual”, que significou muito para a tradição do meticuloso e que consiste em uma saudade aguda para a alma divina que enche completamente tomado por Deus, e que através do mundo iluminada por tudo o que tumultua, para ir direto para o seu fim, com o olhar fixo em Deus, seu único desejo.E os olhos de Deus de Bruno vê primordialmente como bondade: “Não pode ser algo mais bem do que Deus? Na verdade, o que é bom pode ser outro além do único Deus? Assim, a alma santa que, em parte, inclui (…) a beleza do referido bem, iluminado com o amor divino e exclama: A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo “. A bondade de Deus é, portanto, o que mais do que qualquer outra coisa atraiu e encantou a sua alma, de modo que “a experiência de transbordante bondade de Deus, é também uma alma de uma doçura extrema”, e as imagens de ternura maternal e mansidão do cordeiro serão aqueles que seus filhos Calábria irá usar para descrever a sua bondade, ele vai falar sobre vários títulos funeral, especialmente aqueles compostos por aqueles que tinham conhecido pessoalmente de Bruno.Esta bondade e gentileza são, sem dúvida, a origem do espírito de moderação e equilíbrio que brilha a partir de sua figura e que ele irá relatar a sua família religiosa, um sinal de uma alma em paz e ordem interna profunda. Então, enquanto vivem uma regra austera, ele não tem medo de desfrutar as belezas da natureza, porque ele sabe que o arco muito apertado torna-se inútil e, portanto, desaprova ascetismo corporal que pode pôr em perigo a sua saúde. Mas ele sabe que esse equilíbrio não é fácil de obter: é o resultado de um esforço, ea paz do coração é o resultado de uma luta consigo mesmo, com o apoio, pelo amor de Deus: “Deus faz com que seus atletas à fadiga da luta, a recompensa desejada, a paz que o mundo ignora, e alegria no Espírito Santo “.Esta alegria no Espírito é outra característica de Bruno, é, podemos dizer, na reta final da figura deste santo, a culminação necessária de seu retrato. Esta alegria brilhava continuamente em seu rosto: “Ele sempre teve uma cara feliz”, escreveu seus filhos Calábria, anunciando a morte. A alegria está presente em vários pontos da carta de Rodolfo, e todos os seus filhos para os transbordamentos das mensagens cartuxas.Eraa alegria de ser capaz de viver sem reservas a Deus, para ser capaz de amar sem divisões, foi “a alegria de Deus que dá a solidão e o silêncio da ermida para aqueles que os amam” e que é conhecido “apenas por aqueles que fizeram a experiência.

A humildade e a mansidão - Sacerdote

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)

 
            I. — Filho, aprende de Mim, o quê? não a fabricar o mundo, não a fazer milagres, mas a ser humilde e manso do coração [1].



            Reflete na Minha vida, e compara-a um pouco contigo mesmo. Sou alguma coisa mais do que tu; todavia quis nascer de uma Virgem pobre, em um presépio, reputado como Filho de um artista; vesti como pobre, tratei-me em tudo como pobre, e como tal fui considerado no mundo; e tu, sendo tão vil e miserável desde o nascimento quererás ostentar grandeza, no trato, no vestido, em tudo?

            Não poderia Eu, apenas nascido, encher o mundo com a fama de Minhas obras maravilhosas? Mas olha como vivi por trinta anos, em um pobre casebre, numa humilde oficina. Questionei com os doutores da Lei, e fui crescendo em ciência e graça ao passo que cresciam os anos; mas sempre em ocupações de uma vida pobre e comum, sem querer ser conhecido nem estimado; e tu, ignorante, mas soberbo, recusas o ensino, os conselhos, inculcas ser o que não és, e assim pretendes Ordens sagradas e empregos sem disposição nem méritos; e, fugindo das obras humildes, buscas sempre as mais ostentosas.

            Que concluis tu deste paralelo? Eu vivi sujeito às leis, obediente a Minha Mãe, e ainda a José; recebi o Batismo de João; e tu, altivo, mostras tão pouco respeito às leis da Igreja, do Bispo, de teus superiores?

            Desengana-te, filho, que Eu não atendo nem comunico Minhas graças senão aos humildes. Se te não fizeres pequenino, como um menino, não entrarás no reino do Céu: este é o fundamento de toda a vida cristã, e muito mais da vida eclesiástica; e pretenderás tu construir um edifício sem alicerce? [2]

            II. — Eu, depois que comecei a vida publica, busquei acaso em todos os Meus trabalhos, pregações e milagres outra glória que não fosse a de Meu eterno Pai? E tu, que nada és, nada podes, nada vales, não buscarás senão a tua glória vã, louca, nociva, e até á custa da Minha? Eu a ninguém falei com altivez; falei dos príncipes, ainda que pagãos, com todo o respeito; enviei as turbas aos Sacerdotes, ainda que Meus perseguidores; com ninguém porfiei, e ensinei ao maior que se fizesse menor, e se submetesse a todos, ainda que defensores e usurpadores injustos dos bens terrenos. E tu colheste acaso destes exemplos a arrogância, a murmuração e critica dos defeitos alheios, a altercação, o envenenamento das ações e ditos do próximo, até de Sacerdotes e Regulares, sempre com escândalo dos leigos? colheste a ira, as injúrias, o ressentimento implacável contra os que te ofendem?

            Eu fugi de reinar e de toda a humana grandeza; limitei-Me a pregar somente na Judeia, a pobrezinhos, a poucos ouvintes, e até a uma só vil samaritana; chamei, para Me coadjuvar, discípulos pobres, como se deles necessitasse; dei-lhes poder de fazerem milagres, ainda maiores que os Meus, e de levarem por toda a terra o Meu Evangelho: abati-Me a ponto de lavar-lhes os pés, como se fôra seu servo; humilhei-Me, fiz-Me o mínimo entre todos: até nos Meus dons e milagres fiz porventura alguma ostentação de grandeza? na Eucaristia não Me escondo eu sob as espécies do sustento mais vulgar? E tu ainda ambicionarás títulos, buscarás os primeiros postos e preeminências, e até em teus ministérios introduzirás inveja e pontinhos de honra, com escândalo dos seculares? E presumirás agradar a Deus, e converter-Me as almas por meio da aspereza e soberba, quando eu só empreguei o da mansidão e humildade?

            III. — Em que mar de ignomínias e de aviltamento não estive submergido na Minha Paixão! Abandonado dos Meus, traído por Judas, negado por Pedro, perseguido dos Sacerdotes, tratado como louco, posposto a Barrabás; afrontado, oprimido, condenado injustíssimamente a um infame patíbulo; contudo não resisti, não desmenti as calúnias, não Me defendi, não requeri justiça. Se falei, não foi para Me livrar das injúrias, mas para declarar a verdade, ainda que previa que elas se Me aumentariam; e tu, sendo culpado, não sofrerás correção, não quererás sequer comparecer como réu perante um confessor desconhecido? queixar-te-ás de Mim se te mandar tribulações? exigirás, se te tocarem, a mais severa satisfação? e tu, para evitar uma humilhação, algum ditério, dissimularás, desfigurarás, encobrirás a verdade, devida a teu ministério?

            Pergunta a Meus inimigos como os tratei; que doces palavras dirigi a um Judas? pedi perdão para os que Me crucificaram; e, sendo provocado no Calvário a descer da Cruz, posto que podia com uma só palavra, com um gesto livrar-Me das irrisões, quis antes morrer entre celerados, cheio de opróbrios, e ser a abjeção de todos. E assim venci a fereza e orgulho humano; triunfei do mundo, da morte e do Inferno; consegui a redenção das almas, a glória de Meu eterno Pai e do Meu nome.

            Deste modo ensinei-te acaso a sustentar a tua honra com arrogância e fausto? e lisonjear-te-ás que assim deves obrar pela Minha glória?[3] Ah filho, as humilhações conduzem à humildade, e a humildade à glória.

            Fruto. — Refreia a altivez e a aspereza [4]. Dizia S. Francisco de Sales que se caçam mais moscas com uma só colher de mel, que com cem barris de vinagre; e sendo-lhe objetado que S. Paulo manda insistir «oportuna e importunamente», respondeu que toda a força deste lugar do Apóstolo estava naquelas duas palavras, que se seguem: «com toda a paciência e doutrina». A doutrina é a verdade, mas deve ensinar-se com paciência, sofrendo, como Jesus Cristo, se for rejeitada e feita alvo de contradições.

           Busca sempre a glória de Deus; se buscas a tua, és um ladrão.

           É Sacerdote, e por isso deves humi­lhar-te tanto mais, quanto a grandeza da tua dignidade e dos dons de Deus, a que não correspondes, te obrigam as mais rigorosas contas.

            Foi este o motivo por que S. Francisco e muitos outros recusaram o sacerdócio; houve até quem cortasse o dedo polegar, como S. Marcos, e uma orelha como o B. Pedro e S. Amônio, para não poderem ser admitidos ao sacerdócio; outros houve que pediram antes a morte, como S. Hilarião.

Notas:
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[1] De humilitate Christus, tanquam summa suæ doctrinæ, suarumque virtutum gloriatus est: Discite, a me, non quod sobrius, aut castus, aut prudens, aut aliquid ejusmodi; sed quia mitis sum, et humilis corde. A me, inquit, discite: non ad alios vos mitto, sed me vobis exemplum, me formam humilitatis exhibeo. (Bern., Epist. 42.) Morum mansuetude, et humilitas cordis, præcipua sacerdotis insignia sunt. Talis enim fuit Christus, qui dixit: Discito a me, ... (Basil., Reg. fus., 43.) 

[2] Magnus esse vis! A minimo incipe. Cogitas magnam fabricam construere celsitudinis? De fundamento prius cogita humilitatis, ... (August., Hom. brev. 16 Janua.) 

[3] Et hoc manifestum est non placere Deo cum sit contra exempla Christi, et Sanctorum, qui docent humilitatem et modestiam. Mentitur ergo iniquitas sibi, cum dicit se per talia velle Deo place­re, cum in rei veritate placere non intendat, nisi sibi, vel mundo. (F. Bartholom., Stimulus Past., part. II, cap. 6).


[4] Sectare mansuetuninem et pacem. Servum Domini non oportet ligitare, sed mansuetum esse ad omnes, docibilem, patientem, cum modéstia corrijantein eos, qui resistunt veritati. (1.ª Ad. Tim., VI,11.)

São Boaventura e o verdadeiro conhecimento de si mesmo

A VIDA PERFEITA
O verdadeiro conhecimento de si mesmo
(São Boaventura)

            1.      A esposa de Cristo que deseja elevar-se até o cimo da perfeição, há de principiar por si mesma, isto é, esquecida de todas as coisas exteriores, deve penetrar no íntimo de sua consciência e ali discutir, examinar e ver, com diligente cuidado, todos os defeitos, todos os hábitos, todas as inclinações, todas as obras, todos os pecados passados e presentes. Se achar em si alguma coisa menos reta, chore-a sem demora na amargura de seu coração. E para melhor chegares, reverenda madre, a este conhecimento, sabe que todos os nossos pecados e males cometemo-los ou por negligência, ou por malícia.

            Acerca destas três coisas, pois, deve versar o exame de todos os teus males; de outra forma jamais poderás chegar ao perfeito conhecimento de ti mesma.

                                                                  
            2.      Portanto, se desejas conhecer-te a ti mesma e chorar os males cometidos, deves primeiro refletir se há ou houve em ti alguma negligência. Examina-te sobre a negligência com que vigias o teu coração, sobre a negligência com que passas o tempo, e examina-te também se n’alguma obra não tens intenção pecaminosa.

            Estas três coisas cumpre observar com o maior cuidado: vigiar bem o coração, empregar utilmente o tempo, e prefixar a toda obra um fim bom e conveniente.

Igualmente deves refletir sobre a negligência que tivestes na oração, na leitura e na execução da obra; porque nestas três coisas te deves exercer e aperfeiçoar com afinco, se queres produzir e dar bom fruto a seu tempo. Tão intimamente estas três coisas estão unidas, que de forma alguma é suficiente uma sem a outra. Outrossim, cumpre refletires sobre quanto és ou foste negligente em fazer penitência, em lutar e em progredir; porque é mister chorar, com suma diligência, os males cometidos, repelir as tentações diabólicas, e progredir de uma virtude para outra para que possas chegar à terra prometida.

            Desta forma, pois, o exame se ocupa com a negligência.

            3.      Se, porém, desejas conhecer-te melhor, deves, em segundo lugar, refletir se em ti dominou ou domina a concupiscência da voluptuosidade, da curiosidade ou da vaidade. Certamente então reina no homem religioso a concupiscência da voluptuosidade quando deseja coisas doces, isto é, manjares saborosos; quando deseja coisas moles; isto é, vestidos deliciosos; quando deseja coisas carnais, isto é, prazeres luxuriosos.

            A concupiscência da curiosidade existe na serva de Deus, quando deseja saber coisas secretas, quando deseja ver coisas belas, quando deseja possuir coisas raras.

           A concupiscência da vaidade, porém, impera na esposa de Cristo, quando deseja o favor dos homens, quando busca o louvor humano, quando almeja honra diante dos homens. Como veneno deve a serva de Cristo fugir a tudo isso, porque é tudo isso a raiz de todo o mal.

            4.      Em terceiro lugar, se queres ter conhecimento certo de ti mesma, deves diligentemente refletir se há ou houve em ti a malícia da iracúndia, da inveja e da preguiça. Ouve, caríssima irmã, o que digo solicitamente.

            No homem religioso existe a iracúndia quando no espírito, no coração, no afeto, nos sinais, no semblante, na palavra ou no clamor mostra a seu próximo indignação do coração, por mais leve que seja, ou rancor.

            A inveja reina no homem quando se alegra com a desgraça do próximo e se entristece com a sua prosperidade, quando sente prazer com os males do próximo e desfalece com a sua felicidade.

            A preguiça reina no religioso, quando é tíbio, sonolento, ocioso, lerdo, negligente, frouxo, dissoluto, indevoto, triste e tedioso. Tudo isto a esposa de Cristo deve detestar e fugir-lhe como veneno mortífero, porque nestas coisas consiste a perdição do corpo e da alma.

            5.      Se, portanto, caríssima serva de Deus, queres chegar ao perfeito conhecimento de ti mesma, “torna a ti mesma, entra no teu coração, aprende a conhecer o teu espírito. Vê o que és, o que foste, o que devias ser, o que podias ser: o que foste pela natureza, o que agora és pela culpa, o que devias ser por teu trabalho, o que ainda podes ser pela graça.”

            Ouve, ainda caríssima madre, ouve o profeta Davi, como ele se faz o teu exemplo: “Meditei, diz ele, de noite no meu coração, exercitei-me e espanei o meu espírito. (Salmos 76. 7) Meditava ele no seu coração; medita também tu no teu coração. Espanava ele o seu espírito; espana também tu o teu espírito. Trabalha nesse campo, presta atenção a ti mesma.

            Se com insistência fazes este exercício, sem dúvida acharás um precioso tesouro escondido. Pois em virtude deste exercício cresce a plenitude do ouro, a ciência é multiplicada e aumentada a sabedoria.

            Com este exercício purificam-se os olhos do coração, aguça-se o engenho, dilata-se a inteligência. De nada faz um reto juízo quem não se conhece a si mesmo, quem não pensa na sua dignidade. Desconhece por completo que opinião deva fazer do espírito angélico e do divino quem não reflete antes sobre o seu próprio espírito. Se ainda não és capaz de entrar em ti mesma, como serás capaz de elevares-te a coisas que são acima de ti? Se ainda não és digna de entrar no primeiro tabernáculo, com que cara presumes entrar no segundo tabernáculo? (1)

            6.      Se desejas elevar-te, como São Paulo, ao segundo e terceiro céu, hás de passar pelo primeiro, isto é, pelo teu coração. O modo como possas devas fazê-lo, suficientemente t’o ensinei acima. Mas também São Bernardo otimamente te informa quando diz: “Se queres conhecer o estado de tua perfeição, examina, em discussão constante, a tua vida, e reflete diligentemente, quanto te adiantas e quanto te atrasas, quais são os teus costumes, quais as tuas inclinações, quão semelhante ou dessemelhante és a Deus, quão perto, ou quão longe.”

            Oh! Como é grande o perigo do religioso que quer saber muitas coisas, mas não tem verdadeiro e sincero desejo de conhecer-se a si mesmo! Oh! Como está prestes a perder-se o religioso que é curioso em conhecer as coisas, solicito em julgar as consciências dos outros, mas ignora e desconhece a própria!

            Ó meu Deus, donde tanta cegueira num religioso? Eis, a causa é patente, ouve-a. Porque a mente do homem é distraída pelos cuidados, não entra em si pela memória; porque é anuviada por fantasias, não torna a si pela inteligência; porque é arrastada por concupiscências ilícitas, jamais se restaura pelo desejo da suavidade intima e da alegria espiritual.

            Por isto jaz totalmente submerso nessas coisas sensíveis, é incapaz de entrar em si mesmo e penetrar até à imagem de Deus no seu íntimo. Desta forma o espírito se lhe reduz à miséria; ignora e desconhece-se a si mesmo.
            Procura, pois, lembrares-te de ti e conheceres-te a ti mesma, deixando de lado tudo o mais. Isto pedia também São Bernardo, dizendo: “Deus me dê a graça de não saber outra coisa senão que me conheça a mim mesmo.”

***


            (1) A passagem citada de São Vitor entende-se melhor pelo que São Boaventura diz no seu itinerário da mente de Deus (c.5 n.1), onde distingue um tríplice modo de contemplar a Deus, isto é, fora de nós pelos vestígios que ali encontramos de Deus; dentro de nós, isto é, pela imagem de Deus que é a alma com suas potências e faculdades; acima de nós, isto é, pela luz que resplandece sobre nós; e depois acrescenta o Santo: "os que se exerceram no primeiro modo já entraram no adro do tabernáculo; os que no  segundo, entraram no santo; mas os que no terceiro, entram com o Sumo Pontífice no Santo dos Santos.” (Veja-se o livro do Êxodo 25-28 onde se descreve o tabernáculo).

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UMA AVENTURA PARA A FELICIDADE

Publicamos quase integralmente o texto da intervenção intitulada: «Um nome para a eternidade. Breve teologia da vocação sacerdotal», que o arcebispo secretário da Congregação para a Educação Católica apresentou no dia 2 de Julho, durante o encontro anual do «European Vocations Service», organizado na localidade de Horn (Áustria), pela comissão do conselho das conferencias episcopais da Europa.

JEAN-LOUIS BRUGUES

Cada vida cristã é uma aventura. Ela começa a partir de um chamamento que o Senhor nos lança no momento do nosso batismo. Nós passamos a nossa existência a decifrar este chamamento: «O que o Senhor espera de mim?» e, sucessivamente, a responder-lhe. A resposta positiva é-nos oferecida numa das mais bonitas narrações de vocação, que encontramos na Bíblia. Ao menino Samuel, que tinha ouvido pronunciar o seu nome várias vezes no meio da noite, o idoso Heli aconselha a dizer: «Falai, Senhor; o vosso servo escuta!» (I Sm 3,9). Desta narração tiro quatro sugestões de reflexão: a chamada ressoa no meio da noite e, por conseguinte, conservará sempre, também diante dos nossos olhos, um aspecto misterioso e incomunicável; ela pode ser dirigida cedo a nós na nossa vida (Samuel é muito jovem); ela reveste sempre uma forma personalizada (Samuel é chamado pelo nome, enquanto os outros nada ouvem); e uma terceira pessoa é necessária para a autenticar, uma vez que ela ressoa na obscuridade (neste caso, o profeta Heli).

Para os cristãos - repitamo-lo - o primeiro momento em que ressoa a chamada é o batismo. No momento em que recebemos o nosso nome, Cristo escolhe-nos. Ele determina, se assim posso dizer, a sua propriedade: que o saibamos quer não, quer o desejemos quer não, nós somos seus. Como um Deus cioso, Ele sussurrar-nos-á até ao nosso último suspiro: «Tu és meu, inteiramente meu. Tu pertences-me para sempre, e jamais afastarei o meu Rosto de ti. Conservo gravado em ti um sinal indelével; estipulei contigo uma aliança eterna. Tu podes fingir que nada ouviste, podes afastar-te de mim, podes comportar-te como se este batismo nunca tivesse existido, porque Eu amo unicamente homens livres. Tu podes mesmo correr o risco da aventura comigo, podes corresponder à minha amizade por ti com uma amizade por mim. No entanto, sabe que te dei um nome, e este nome caracterizar-te-á para toda a eternidade».

A esta aventura, a tradição cristã confere o bonito nome da santidade. A vocação à santidade percorre a Bíblia inteira: «Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv 19, 2; quanto a nós, poderíamos traduzir igualmente bem: «Sede santos, como Eu sou santo»). Esta santidade poderia parecer terrivelmente distante, até mesmo impossível: como imitar a santidade de um Deus que não se vê, que não pode sequer ser aproximado, sob a pena de morrer? Mediante a sua encarnação, Cristo - Aquele que é a imagem perfeita - tornou sensível a imagem do Deus invisível. Graças a Ele, a santidade fez-se mais próxima, mais alcançável, diria mais familiar. «Eu sou manso: também vós sede mansos». «Eu sou misericordioso: também vós sede misericordiosos». Nós podemos declinar deste modo cada uma das bem-aventuranças. Para os batizados, a santidade consiste, por conseguinte, numa imitação da santidade de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano 11 recorda de maneira oportuna - porque este aspecto poderia ter sido anulado ao longo dos últimos séculos - que a chamada à santidade se dirige a todos os batizados, sem qualquer exceção: «Todos os fiéis cristãos, de qualquer condição ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (Lumen gentium, 40). Para um batizado, a santidade não constitui uma opção, mas uma obrigação.
Não obstante a vocação à santidade se dirija a todos, ela reveste sempre uma forma personalizada. Voltamos a encontrar aqui a importância do nome: Deus chama cada um por nome, e cada um terá o seu próprio modo de responder a este chamamento. A santidade é sempre singular: a diversidade extraordinária das personalidades dos santos demonstra-o de modo oportuno. Neste sentido, as várias formas de santidade pessoal não são comparáveis entre si; cada uma é única, cada uma delas é original.
A chamada é personalizada: «Tu, vem dentro de mim», tu, e não uma outra pessoa; a resposta da nossa parte é personalizada pelo nosso temperamento, pela nossa história individual e por todos os acontecimentos que teceram a trama da nossa existência.
Por conseguinte, nós passamos a nossa vida a decifrar a chamada do Senhor, ou seja, o sonho que o Senhor alimentou para cada um de nós; transcorramos a nossa existência, se pelo menos quisermos ser fiéis ao nosso batismo, a responder a este chamamento. Vós bem sabeis que na Bíblia o nome resume sozinho a pessoa inteira.
Aqui, o nome justifica uma personalização dupla. Personalização daquele que toma a iniciativa de chamar: «Tu, Samuel», «Tu, Filipe», «Tu, pescador, que estás a preparar as redes», «Tu, cobrador de impostos» - os Evangelhos sinópticos tiveram o bom cuidado de citar cada uma das chamadas dirigidas aos discípulos. E personalização daquele que é chamado. Assim, a vocação comporta uma vertente dúplice: objetiva (o chamamento lançado) e subjetiva (a resposta oferecida).
Na narração bíblica de Samuel, que deu início à nossa reflexão, entrevimos três personagens: a criança, a voz que desperta e a terceira pessoa que interpreta. O fato é que a aventura da vocação não se realiza com duas pessoas, como poderia deixar crer uma abordagem individualista - eu e o meu Deus - mas com três. Quem é o terceiro parceiro? Para responder a esta interrogação, é necessário recordar que foi do agrado de Deus fazer da santidade pessoal uma aventura coletiva. A esta aventura comunitária, nós damos o nome de Igreja. A Igreja não é senão a aventura conjunta da santidade, em síntese, a aventura de toda a humanidade.
No Catecismo da Igreja Católica nos lemos: «Na Igreja, esta comunhão dos homens com Deus pela "caridade, que jamais passará" (I Cor 13,8), é o fim que determina tudo quanto nela é meio sacramental, ligado a este mundo que passa... "A sua estrutura está completamente ordenada à santidade dos membros de Cristo"» (n.773). A messe tem necessidade de trabalhadores, a missão precisa de servidores. E por este motivo que o Senhor escolhe sacerdotes para si. Ele chama homens para O reproduzirem no seu próprio ser - palavras, gestos e até mesmo a identidade física - para agirem em seu Nome, tornando-se os pastores do seu povo. «O presbítero é inserido sacramentalmente na comunhão com o Bispo e com os outros presbíteros, para servir o Povo de Deus que é a Igreja e atrair todos a Cristo» (Exortação Apostólica Pastores dabo vobis,12). Servir: eis, sem qualquer dúvida, a palavra chave que nos permite aceder ao mistério do sacerdócio.
Por que razão um, em vez de outro? Por que eu? Por que motivo fui chamado a tornar-me sacerdote? Somente Deus conhece a resposta a estas perguntas. Aqui, seria necessário recordar a bonita e difícil teologia da eleição. Com efeito, a Bíblia leva-nos a ver que o Senhor sempre escolheu livremente, em conformidade com critérios que não são os nossos, por vezes correndo o risco de nos escandalizar. Por que motivo Israel, e não um outro povo? Além disso, este não era o melhor dos povos.
Por que o menor, e não o maior? Por que razão o mais jovem, que parece também o menos experiente (cf. a escolha de David)? Deus escolhe com uma liberdade soberana. Só descobrirei a razão da minha vocação sacerdotal quando me encontrar na sua presença. E aqui, portanto, que se apresenta uma questão crucial: por um lado, é necessário que eu me alicerce nas minhas intuições, nas minhas aspirações, nos meus desejos e até mesmo nos meus sonhos, para descobrir que Deus me chama para o seu serviço, sob esta modalidade de presbítero; por outro lado, não devo fazer destes impulsos da minha personalidade algo absoluto, mas sim submetê-los ao juízo de outro, da Igreja.
O profeta Reli compreendeu que a voz vinha de Deus, mas o menino, que de resto tinha sido escolhido, não o tinha entendido. Somente a Igreja pode autenticar esta chamada e fazê-la sua A ela compete chamar ou não ao ministério presbiteral aqueles que se sentem atraídos por Ele. Era pouco depois, do mês de Maio de 1968: o arcebispo de Paris tinha sido convidado a particular numa transmissão televisiva. Desejava-se interrogá-lo sobre a crise de ministério. Numa certa altura, recordo-me muito bem, com a admiração dm demais participantes, o arcebispo dirigiu-se para a telecâmara e, fixando os olhos no rosto dos espectadores, proferiu estas palavras: «Tenho necessidade de vós! Admito!», como o teria feito e senhor da messe, da parábola evangélica. Ele tinha razão: a Igreja chama ao serviço da sua missão o sacerdote de, qual ela tem necessidade.
A propósito: certamente conhecemos algumas daquelas situações afinal dramáticas, em que o candidato traz consigo como que uma ferida a rejeição do bispo de o chamar. Então, é grande a tentação de procurar outro bispo mais compreensivo ou menos lúcido: estas demissões de seminário em seminário, conduzidas mais ou menos honestamente, representam - digamo-lo com toda a franqueza - uma chaga para a Igreja deste tempo.
Com efeito, a Igreja discerne as vocações, a Igreja chama ao ministério presbiteral. A Igreja forma os candidatos. Quando os bispos, em visita ad limina, vêm também à sede da Congregação para a Educação Católica, nós repetimos sempre a mesma mensagem: a formação dos presbíteros é deveras importante; colocai nos vossos seminários os melhores dos vossos sacerdotes como educadores. Sem dúvida, estes sacerdotes farão falta na pastoral imediata; no entanto, o porvir da diocese depende amplamente da qualidade dos futuros sacerdotes.
Finalmente, a Igreja confiará amanhã aos jovens presbíteros a missão que parecerá a mais adequada às suas próprias capacidades. Fazer nascer, educar e lançar na vida: se pensarmos bem, todas estas atividades são por sua natureza maternas. Portanto, é necessário voltar a descobrir a dimensão maternal da Igreja. Uma lembrança volta ao meu pensamento. Certa vez fui a um grande centro da minha diocese. Um grupo de oito adolescentes preparavam-se para receber a confirmação - eram os primeiros que tinham pedido para receber este sacramento, depois de vinte e oito anos! Fiquei admirado diante da sua naturalidade, do seu bom humor e principalmente da sua capacidade de rezar: eles entravam nas orações como um pato entra na água! E perguntaram-me o que representava a Igreja para mim: respondi-lhes que tinha aprendido a amar a Igreja como uma mãe. Eles gostaram desta minha resposta. Por outro lado, a sua acompanhadora não conseguiu conter-se e disse: «Como uma mãe? Eu nunca tinha pensado nisto. O senhor não pensa que isto é um pouco obsoleto?». Não, não se pode saber o que é realmente a Igreja, se não a considerarmos como a nossa própria mãe. E precisamente por este motivo que o sacerdote é chamado a alimentar uma devoção particular à Virgem Maria, Mãe da Igreja e por conseguinte sua própria mãe.
Pudemos ponderar sobre a chamada em si mesma, lançada por Deus, sobre aquela que quisemos denominar a vertente objetava da vocação. Mas ainda temos que meditar sobre a vertente subjetiva. Por isso, levantam-se duas interrogações gerais: como chegar à convicção de que o Senhor me chama verdadeiramente a esta existência, neste caso, a tornar-me sacerdote? Como posso responder a este chamamento?
Ainda: como saber precisamente para o que o Senhor me chama? Como chegar a ter uma convicção que apóie a minha decisão? Vós conheceis as respostas clássicas, que têm todas a sua importância de verdade: rezar, pedir conselhos particularmente no contexto da guia espiritual e sobretudo tornar dócil o próprio coração, de maneira a torná-lo disponível e aberto à vontade divina.
Eu deveria deixar de lado o apoio da comunidade - família, paróquia, movimento, etc.; por um lado, vemos que o acompanhamento feito por estas comunidades é necessário, a fim de que a vocação não se perca nas areias da solidão; por outro, sabemos também que algumas famílias procuram principalmente desencorajar estas vocações (“E um beco sem saída”, dizia uma mãe de família) e que às vezes as outras comunidades cristãs hesitam em falar delas, embora as situações tenham evoluído de maneira mais positiva nestes últimos tempos.
Mais uma vez, a resposta sugerida ao jovem Samuel pelo profeta Heli parece-nos a melhor: «Fala, Senhor, o teu servo está à tua escuta». Mas, exatamente, como Deus fala? Ele constrói -se assim o posso dizer- setas de todas as madeiras, e indica-nos o seu desígnio de muitas formas, por vezes das maneiras mais inesperadas. Um livro, um filme - aqui, ou louvor especial a The Tree of Lifé, que constitui um dos filmes mais cristãos destas últimas décadas um programa televisivo - nos Estados Unidos até na imprensa se vêem anúncios publicitários que exaltam a entrada no seminário ou numa casa religiosa -encontros determinantes, um testemunho de sacerdotes que nos parece entusiasmante e digno de imitação- a tristeza de um presbítero pode ser um contratestemunho. Eis, por conseguinte, alguns dos sinais objetivos através dos quais o Senhor procura fazer-nos conhecer a sua vontade a propósito de nós. Tudo se torna sinal de Deus, para quantos dispõem o próprio coração em sintonia com a vontade divina.
No entanto, existe "um sobre o qual eu gostaria de meditar um pouco mais. O melhor sinal permanece a própria pessoa! Com efeito, é no conhecimento de nós mesmos que descobrimos progressivamente que o nosso modo particular de viver o nosso batismo passa de maneira obrigatória através de tal opção de vida. A nossa índole, o nosso temperamento, as nossas aspirações -como dizíamos antes- os nossos sonhos, em síntese, a nossa personalidade, são todos sinais do primeiro discernimento. O antigo conselho que se encontrava escrito no pórtico do templo de Delfi nada perdeu da sua atualidade: «Conhece-te a ti mesmo». Quem não se conhece a si próprio, é incapaz de escolher. Equivocando-se acerca de si mesmo, erraria necessariamente a respeito do seu futuro. Fazendo uma opção definitiva, na realidade assumiria um compromisso por outro alguém, diferente de si mesmo: compreender-se, antes de poder doar-se. Portanto, é necessário alcançar uma maturidade real, antes de se decidir. Indubitavelmente, trata-se de um dos principais desafios que a nossa sociedade lança à vocação sacerdotal. Ela, que cultiva uma forma de indeterminação, uma espécie de imaturidade, deixando crer que é melhor adiar quanto mais possível o momento da escolha, com a finalidade de conservar a própria liberdade, ou ainda, que nenhuma escolha poderia ser definitiva e comprometer para a vida inteira. Foi quanto eu mesmo aprendi, preparando muitos casais para o matrimônio: hoje, como dizíamos, experimentamos um sentimento muito forte um pelo outro. E eu perguntava-lhes: mas se amanhã, como é inevitável, este sentimento se debilitar ou até mesmo desaparecer, o que fareis? A resposta era sempre a mesma: se nos transformarmos a nós mesmos, mudaremos também os nossos compromissos.
Daquilo que acabei de afirmar, tiro uma conclusão pessoal: para cada um de nós só existe uma única vocação. O Senhor não nos oferece um leque de possibilidades; não nos encontramos equidistantes destas diferentes possibilidades: verdadeiramente uma só nos é conveniente. Os moralistas explicarnos-iam que aqui não existe matéria para a liberdade de indiferença. Portanto, a vocação não é uma chamada que viria de fora de nós próprios, permanecendo alheia a nós mesmos; não, o Senhor orientou todo o nosso ser em vista do chamamento que nos lança.
Fomos concebidos e modelados em todas as fibras do nosso ser, em função desta chamada. Com outras palavras, a vocação não encontra em nós seres indeterminados, mas sim verdadeiramente programados - como se fala de programa na genética - em função dela. Aqui utilizaria a expressão agostiniana de predestinação, mas num sentido diverso do original: no que se refere à nossa vocação, sim, nós somos efetivamente predestinados. Seria necessário citar aqui o magnífico Salmo 139: «A palavra ainda não me chegou à língua, e já, Senhor, a conheceis inteiramente. Vós cercais-me por trás e pela frente, e estendeis sobre mim a vossa mão. Fostes vós que plasmastes as entranhas do meu corpo, vós me tecestes no seio da minha mãe. Para onde irei, longe do vosso Espírito? Para onde fugir, afastado do vosso olhar? Se eu tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar, é ainda a vossa mão que lá me levará, é a vossa direita que me sustentará». Um único chamamento na vida, e não outro. É Deus quem chama e portanto não poderia, se assim o posso dizer, «des-chamar».
Se vós compartilhardes esta convicção, sentir-vos-eis mais à vontade para responder à segunda interrogação, que fizemos mais acima: por que responder sim ao Senhor? Porque não se pode agir de outra maneira. E de modo algum porque o Senhor nos impõe a sua vontade à maneira de um soberano arbitrário; podemos dizer não, mas dizer não seria como negar-nos a nós mesmos, considerando que fomos preparados para esta missão desde toda a eternidade. Como o diz ainda a Bíblia, diante de cada um de nós, o Senhor dispôs uma escolha: entre a vida e a morte; somos livres de estender a nossa mão para uma ou para a outra (cf.Eclo15,16-17). Mas escolher a morte significa verdadeiramente escolher?
Por que devo responder sim, se o Senhor me chama a tornar-me sacerdote? Muito simplesmente, porque se trata da minha própria felicidade. Ser presbítero, para ser feliz. Sem dúvida, este caminho inclui renúncias: ao matrimônio (mas de modo algum à amizade), aos filhos (mas decerto não à paternidade espiritual), ao prestígio social (mas para comunicar a vida do próprio Deus). Além disso, cada existência humana exige renúncias. Ser feliz como sacerdote, não obstante estas renúncias, ou até por causa delas, porque não existe maior felicidade do que dar a própria vida pelos amigos. Preferir servir, porque servir é uma honra.
Para terminar esta reflexão, gostaria de meditar sobre uma texto particularmente emocionante. No dia 18 de Setembro de 1994, João Paulo II encontrava-se com os jovens da diocese italiana de Lecce. E falava-lhes sobre a vocação, sobre todas as formas de vocação. Esta meditação magnífica a propósito do vínculo existente entre a vocação e a felicidade é válida também para nós: «O jovem começa a programar a sua vida e vive com este desígnio, enquanto procura realizar este projeto, preparando-se para a sua realização. Em síntese, isto chama-se também vocação, porque aquele programa que tu querida jovem, tu caro jovem, julgas como tua propriedade, provém também ao mesmo tempo de Deus, é sugerido pelo Espírito Santo, e é necessário uma colaboração com o Espírito Santo para identificar este desígnio, aprofundá-lo e em seguida realizá-lo bem, para encontrar a felicidade, porque o projeto realizado traz consigo esta felicidade, esta felicidade para a qual Deus nos chama. Todos nós somos chamados para a felicidade em Deus, através deste nosso programa que provém também dele. Nós aceitamo-lo e realizamo-lo, e depois ele encontra a sua última etapa no próprio Deus».


L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, nº. 2171, 30-07-2011. Pp. 6-7.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A ALEGRIA DE SER CARTUXO

INTRODUÇÃO

Há alguns anos o filme “O Grande Silêncio” causou grande impacto no público. Revelou um pouco sobre a vida dos cartuxos, mas só um pouco, porque a mudez do filme deixou os espectadores com muitas perguntas no ar. Quem são esses monges vestidos com grosseiros hábitos brancos? Que sentido tem essa vida retirada e silenciosa, tão diferente da vida dos sacerdotes e religiosos dedicados à vida pastoral, ao ensino, às missões, inseridos no mundo? Os cartuxos defendem com firmeza o seu silêncio e retiro do mundo para poder viver seu carisma próprio e especial, por isso fogem da publicidade e raramente concedem entrevistas aos meios de comunicação. Não é de se adimirar que sejam tão pouco conhecidos. Apesar de tudo, a vida solitária dos cartuxos sempre atraiu homens famintos do Infinito, desejosos de viver ocultos aos olhos do mundo, consagrando a sua existência totalmente a Deus no silêncio e na solidão de um ermo. Santos como Inácio de Loyola, João da Cruz e outros, sentiram o desejo de ingresar em uma cartuxa. E a Cartuxa continua despertando interesse em não poucas pessoas de fé que se sentem atraídos por uma vida de fé singela, centrada no essencial. Recolhemos aqui as perguntas que há alguns anos o Pe. Rosendo Roig, jesuíta, planejou para os cartuxos de Miraflores (Burgos, Espanha). Também aproveitamos para adicionar outras perguntas que os aspirantes costumam nos fazer em suas cartas e em seus retiros vocacionais. Esperamos que estes simples diálogos sirvam de orientação aos jovens desejosos de saber mais sobre o carisma e a vida diária dos cartuxos.

1. A VOCAÇÃO
 - Quando um jovem aspira ingressar na Cartuxa...
 - Normalmente nos escreve.
 - A quem se dirige? - Normalmente ao Pe. Prior.
 - E quem lhe responde? - O Pe. Mestre de noviços lhe manda uma carta incluindo um opúsculo informativo que dá uma ideia geral sobre as observâncias e exigências da vocação cartusiana. Hoje a maior parte dos aspirantes se dirige a nós por e-mail.
- E depois? - Se responde e persiste em seu propósito, depois de recebermos informações favoráveis da parte de algum sacerdote que o conheça, o aspirante é convidado a passar uns dias de experiência na Cartuxa.
- Como passará esses dias? - Para que a experiência seja mais proveitosa, ele vive em uma cela do claustro e segue os mesmos horários da Comunidade.
 - Essa experiência esclarece alguma coisa? - Depois de vários dias o aspirante terá uma ideia bastante aproximativa da vida que deseja abraçar.
- Quem se ocupa dele durante esses dias? - O Pe. Mestre de noviços o visita com frequência, e com ele o aspirante fala amistosamente sobre a vocação e tudo o que está relacionado a esta. - Qual é precisamente a finalidade desse diálogo? - Aprofundar a espiritualidade cartusiana para ajudar o aspirante a descernir a sua vocação.
- Que motivações não seriam válidas para ser monge cartuxo? - As desilusões da vida, o desejo de uma vida tranquila, sem problemas, em geral qualquer motivo egoístico. O único motivo válido é a busca dos valores que não passam, a busca mais ou menos claramente percebida (ou ao menos pressentida) de Deus. Procuramos analisar a vocação com o máximo de discrição e paciência.
- Com que idade se pode entrar na Cartuxa? - Tende-se a desaconselhar cada vez mais o ingreso antes dos 21 anos.
- Dos 21 até que idade? - Sem a autorização especial do Capítulo Geral ou do Reverendo Padre, que é o Superior Geral da Ordem, não se pode receber ninguém que já tenha 45 anos.
- E a autorização é concedida? - Se a idade não supera muito os 45 anos pode ser concedida, mas só depois de ter feito uma experiência especial de três ou quatro meses antes de ser admitido como aspirante.
- Por que essa experiência? - Porque nessa idade a adaptação às observâncias da Cartuxa é mais difícil e é preciso ver claramente se o candidato é capaz de adaptar-se antes de ser admitido como aspirante.
- E quanto à saúde, o que exige a Cartuxa? - Antes da admisão, nossos Estatutos aconselham “consultar médicos prudentes que conheçam bem o nosso gênero de vida”. Pequenos desequilíbrios psíquicos que em outro lugar passariam quase despercebidos encontram na solidão da Cartuxa uma caixa de resonância que, aqui, impediriam de viver uma vida normal. Hoje os exames médicos são obrigatórios antes do Noviciado e da Profissão. 3
- Quanto ao caráter, o que exige? - A vocação à solidão da Cartuxa exige uma vontade determinada e um juízo equilibrado.
- Então os caráteres tranquilos levam vantagem sobre os temperamentos nervosos? - Nem sempre. Os temperamentos nervosos também podem se adaptar bem à Cartuxa.
- Sintetizando, qual é a qualidade essencial que se requer para ingressar na Cartuxa? - Como a vida do cartuxo é uma vida de oração, dificilmente se admite a quem não sinta atração pelo recolhimento e pela oração. Na vida contemplativa nenhuma qualidade, por excelente que seja, pode suplir o espírito de piedade.
- Qual é especificamente a missão do Pe. Mestre de noviços? - Dirigir a formação dos noviços, ajudá-los em suas dificuldades e nas “tentações que costumam insiditar os discípulos de Cristo no deserto”.
- Na Cartuxa se segue algum método específico de oração? - Normalmente o noviço cartuxo começa sua aprendizagem nos caminhos da oração através da “lectio divina”. Este método de oração tradicional na vida monástica, sintetizado por Guigo II, o Cartuxo, consiste em ler pausadamente uma passagem da Sagrada Escritura e “ruminá-lo” lentamente. Depois, em silêncio, pode-se servir de sentimentos de agradecimento, de louvor, de contrição, que tal texto fez surgir dentro de nós para transformá-lo numa oração ao Senhor. Quando esse texto já não nos diz nada de especial, ou quando sobrevêm as distrações, volta-se a ler uma outra passagem, deixando-a descer ao coração. Este método de oração é muito simples e reduz notavelmente as distrações. Todo o ambiente da Cartuxa faz com que o monge se deixe possuir pela oração.
- Vocês dão muita importância à formação na vida de oração? - Não poderia ser diferente. É importante que a oração do noviço tenda a simplificar-se, transformando-se num olhar singelo e amoroso ao Senhor, ainda que se trate apenas dos primeiros graus dessa oração de “simples olhar” ou de “quietude”, é conveniente que o noviço chegue a saborear a oração contemplativa. O mestre de noviços deve educá-lo com muita prudência à contemplação, consciente de que esta é a meta da oração.
 - Não é exigir demais de um simples noviço? - Normalmente se um noviço recebe a graça da experiência contemplativa de Deus, por mais simples e curta que seja, já estará preparado para superar os momentos de desânimo ou aridez e as crises que não costumam faltar, principalmente no tempo de noviciado. Viver habitualmente na presença de Deus, em relação continua e orante com a Sua Palavra no Ofício Divino, a liturgia das Horas, e nos momentos dedicados à “lectio divina”, vão arrancando o “homem velho” que dorme no fundo de cada um. O jovem monge vai se livrando da tirania dos sentidos e das paixões, do forte reclame do mundo sensível, do qual sinceramente se despediu ao entrar na Cartuxa, mas que continua alí, agarrado em seu interior. Vai superando assim a dispersão dos sentidos, a superficialidade, a inconstância, e toda a sua vida vai sendo penetrada quase imperceptivelmente da proximidade de Deus. Então, no recolhimento e no silêncio interior que invadem seu espírito, lhe são quase conaturais os sentimentos de adoração, de gratidão e de alegria espiritual. Se faltasse esse pilar da oração contemplativa, a vocação estaria sempre exposta ao desânimo, aos vaivéns dos sentimentos mutáveis, ao cansaço, à aridez e falta de gosto pelas coisas espirituais: muitas vezes são essas as causas que estão na raiz da maioria dos casos de abandono da vida monástica.
2. AS ETAPAS DO CAMINHO: MONGES DO CLAUSTRO
A. O Postulantado
- Suponhamos que um aspirante a monge cartuxo tenha dado sinais de verdadeira vocação, no parecer dos Superiores da Cartuxa. O que se faz? - Recebe-se o jovem como postulante.
 - O que é Postulantado? - É o período de prova que prepara para o Noviciado.
- Quanto tempo dura? - De seis meses a um ano.
 - Que tipo de vida leva o postulante? - Uma vida muito parecida com a dos monges.
- Exatamente igual? - São-lhe concedidas certas dispensas com o objetivo de que sua adaptação à nova vida seja gradual.
- Como se veste? - Como secular, mas nos atos comunitários usa um manto preto.
- No que o postulante ocupa o tempo? - Nos momentos não consagrados à oração, se dedica a formar-se no espírito da Cartuxa, aprende as cerimônias litúrgicas e estuda latim.
- Latim? - É, latim.
- Demora muito para aprender o latim? - Normalmente, depois de alguns meses de esforço, o postulante consegue adquirir modestos conhecimentos que lhe permitem entender os livros litúrgicos.
B. O Noviciado
- Suponhamos que, concluídos os meses de postulantado, a conduta do candidato tenha sido adequada... - Se a Comunidade lhe dá voto favorável, é admitido para o Noviciado. - Quanto dura o Noviciado? - Dois anos.
- O que faz o noviço durante o primeiro ano? - Ele se forma na vita espiritual, aplicando-se ao estudo da liturgia e das observâncias cartusianas.
- E no segundo ano? - Começa os estudos que o preparam para o Sacerdócio: dois anos e meio de Filosofia e três anos e meio de Teologia.
- E onde cursa esses estudos? - Devido à vocação eremítica da Cartuxa, esses estudos têm lugar na solidão da cela.
- Mas como? - Duas vezes por semana os estudantes vão à cela de um cartuxo conhecedor das matérias estudadas. Alí prestam contas de seus estudos e pedem as explicações necessárias. O cartuxo professor resolve as dificuldades que eles possam ter encontrado. Também é comum recorrer a professores de fora para assegurar melhor a formação teológica dos alunos.
 - Como os noviços se vestem? - Portam um hábito igual ao dos monges que já fizeram profissão, mas a cógula é curta e sem as faixas laterais.
- O que são as faixas laterais? - São duas tiras de tecido que unem a parte da frente e a parte de trás da cógula. Os noviços continuam a usar o manto preto nos atos comunitários.
C. A Profissão temporal
- Passados os dois anos, a Comunidade deu seu voto favorável. O que acontece com o noviço? - Ele chega à Profissão temporal.
- Por que “temporal”? - Porque ele emite os votos de estabilidade, obediência e conversão de costumes por três anos somente.
- Quais são os efeitos da Profissão temporal? - Por ela, o “jovem professo” é definitivamente inscrito nos registros da Cartuxa onde emitiu os votos. Os anos de antiguidade na Ordem passam a contar a partir dessa primeira Profissão.
- E o Noviciado acabou? - O jovem professo continua a ser membro do Noviciado como um noviço. O Pe. Mestre de noviços dirige a sua formação espiritual. Mas, no curso desses três anos, continua seus estudos eclesiásticos e aprofunda mais a formação espiritual iniciada no Noviciado.
- E passados os três anos? - O jovem professo renova os votos por mais dois anos. A diferença é que nesses dois anos viverá com os professos de votos solenes, experimentando assim plenamente a vida que pensa em abraçar para o resto da vida.
- Continua estudando? - No último ano habitualmente interrompe os estudos para dedicar-se mais plenamente à oração e à solidão da cela.
D. A Profissão solene
- Já se passaram sete anos e enfim chegou a tão desejada hora da consagração definitiva. - Dia importante para um cartuxo? - É o maior acontecimento na vida de um cartuxo juntamente com a Ordenação ao Sacerdócio.
- A que ele se compromete? - A viver para sempre e exclusivamente para o louvor de Deus. A Profissão solene é fruto de uma longa corrente de graças às quais o candidato correspondeu generosamente com a sua fidelidade diária.
- O que acontece depois da Profissão solene? - Sob certos aspectos esta é mais um começo. O monge cartuxo em um ato sublime se consagrou a Deus. Agora tem de viver essa consagração dia a dia. O Sacerdócio conferido ao terminar os estudos coroa a Profissão.
 - Que sentimentos preenchem a alma do cartuxo no dia de sua Profissão solene? - Acho que os mesmos que, com acento lírico, expressou nosso Pai São Bruno na carta aos Irmãos de Chartreuse: “Alegrai-vos, pois, meus caríssimos irmãos, por vossa feliz sorte e pela abundância de graças que Deus derramou sobre vós. Alegrai-vos por terdes escapado dos muitos perigos e naufrágios do tempestuoso mar do mundo. Alegrai-vos por terdes alcançado o refúgio tranquilo e seguro do porto mais escondido. Muitos gostariam de alcançá-lo, muitos até se esforçam para chegar até ele, sem o conseguir. E muitos outros, depois de tê-lo alcançado, dele são excluídos, porque a nenhum deles se lhes havia concedido do alto. Portanto, meus irmãos, tende por certo que quem quer que tenha desfrutado de tão grande bem, e por um motivo ou outro o perde, lastimar-se-á por toda a vida”.

3. OS IRMÃOS CARTUXOS

- Sempre houve Irmãos na Cartuxa? - Quando São Bruno se retirou ao deserto de Chartreuse, dois de seus companheiros eram leigos: Andrés e Guérin. Foram eles os primeiros Irmãos da Ordem. Sim, sempre houve Irmãos na Cartuxa. Com pequenas variações, o número de Irmãos na Ordem Cartusiana permaneceu durante séculos como na atualidade: sete ou oito Irmãos para cada dez Padres. Os Monges do Claustro e os Irmãos são duas formas distintas de conjugar uma mesma vocação. Uns e outros compartilham sob formas complementares a responsabilidade da missão que incumbe às comunidades cartusianas: fazer com que exista no seio da Igreja uma família de solitários.
- Explique. - Os monges do claustro vivem em suas celas a maior parte do dia.
 - E os Irmãos? - Mesmo participando da mesma vocação solitária que os Padres, eles a realizam de uma forma distinta.
- Como? - Os Irmãos empregam certo tempo ao trabalho manual fora de suas celas assumindo as tarefas materiais do mosteiro.
 - Fale-me mais sobre os Irmãos. - Os Irmãos cartuxos, desde o começo até hoje, têm impressionado por sua estabilidade e seu elevado nível espiritual. Têm na Cartuxa um lugar próprio perfeitamente definido.
- E a que se deve isso? - À vigilância dos Capítulos Gerais, à proximidade do Prior e do Procurador – que é o monge encarregado dos assundos materiais do mosteiro –, mas sobretudo ao clima espiritual de silêncio e solidão do qual os Padres e os Irmãos participam igualmente, ainda que segundo modalidades distintas.
- Qual é a formação de um Irmão cartuxo? - É um caminho parecido ao dos monges do claustro. A duração do Postulantado varia e depende em boa parte da formação espiritual do candidato: pode durar de seis meses a um ano. Se a conduta do postulante deixa entrever uma vocação autêntica, após a votação da Comunidade ele é admitido ao Noviciado de Converso. Sua duração é de dois anos.
- Quem é o Pe. Mestre dos Irmãos? - Tradicionalmente seria o Pe. Procurador, mas ultimamente é comum que seja o mesmo dos monges do claustro. O Pe. Mestre os dirige na formação e os ajuda a superar as provas e dificuldades que encontram no caminho.
 - Quando termina satisfatoriamente o Noviciado, o que faz? - O Irmão faz sua primeira Profissão por três anos. A partir desse momento, ele fica constituído como membro da Ordem. No final desses três anos, o converso temporal renova seu compromisso por mais dois anos. Durante todo esse tempo continua sob a direção do Padre Mestre.
- Então, para chegar a ser Irmão cartuxo são necessários sete anos de formação. - Isso. E terminados os sete anos de formação chega o momento tão desejado de consagrar-se definitivamente a Deus através dos votos solenes. A cerimônia da Profissão acontece assim: durante a Missa conventual ele lê a fórmula da Profissão. Depois a deposita sobre o altar como símbolo de sua entrega a Deus.
- Os Irmãos recebem uma formação especial? - A formação é sólida, adaptada ao seu estado. A Ordem dispôs para eles o que hoje chamamos “formação permanente”. Quer dizer, durante os primeiros 7 anos de suas vidas como cartuxos, orientados pelo Pe. Mestre, dedicam um tempo todos os dias ao estudo da Bíblia, de Teologia, Liturgia, Espiritualidade... Esta formação se adapta a cada Irmão. Ao longo de suas vidas podem continuar estudando.
- O que os Irmãos lêem? - Eles têm à sua disposição a Biblioteca da Casa. As seções de Espiritualidade e Vidas de santos são as que mais frequentam.
 - Quantas horas por dia trabalha um Irmão? - Normalmente cinco, distribuídas entre a manhã e a tarde, mas durante o período de formação são reduzidas para que possam dedicar mais tempo à própria formação.
 - Em que consiste o trabalho na Cartuxa? - Antes de tudo é bom sublinhar que o trabalho dos Irmãos é um trabalho monástico. Eles não são empregados cuja principal razão de ser é a de fazer funcionar o mosteiro. Quando dizemos que o seu trabalho é um trabalho monástico queremos dizer que se trata de um ato religioso que os ajuda a progredir na prática das virtudes e que os aproxima de Deus.
- Como conseguem em pleno trabalho conservar o espírito de oração e de solidão? - Os Estatutos da Ordem aconselham a recorrer, durante o trabalho, a breves impulsos em direção a Deus (chamados “orações jaculatórias”). Pode-se também interromper o trabalho para um breve momento de oração.
- Os cartuxos trabalham em grupo? - Procura-se, na medida do possível, que cada um trabalhe individualmente na obediência que lhe foi confiada.
- É importante o silêncio? - Sim, é muito importante o silêncio durante o trabalho. Nossos Estatutos dizem: «Só o recolhimento durante o trabalho conduzirá o Irmão à contemplação».
- Tanta concentração espiritual não atrapalha a eficácia do trabalho? - Normalmente não. Em seu espaço de trabalho, o Irmão tem liberdade e iniciativa. E a dedicação e o interesse por seu trabalho costumam transformar os Irmãos Cartuxos em verdadeiros especialistas.
 - E a oração “oficial”, a oração litúrgica, como é regulada para eles? - É como a dos monges do claustro, através da oração das Horas canônicas, ainda que um pouco reduzida.
 - Os Irmãos suprem as Horas canônicas com alguma coisa? - Frequentemente os Irmãos preferem rezar determinado número de Pai-Nossos e Ave-Marias por cada Hora do Ofício Divino. Assim era antigamente.
- Quando eles participam da Missa? - Podem participar da Missa celebrada pelo Pe. Procurador, bem cedo. E, se preferem, podem assistir à Missa conventual com os Padres.
 - Como vocês não tomam café da manhã, o que fazem e onde ficam os Irmãos entre a Missa e a hora do trabalho? - Em suas celas, dedicados à oração e à leitura espiritual.
 - E quando acaba o trabalho? - Ao meio-dia, antes do almoço, fazem uma visita de quinze minutos ao Santíssimo.
- E à tarde? - Frequentemente interrompem o trabalho para ir à igreja celebrar as Vésperas com os Padres, mesmo não sendo obrigados.
 - A que horas acaba o dia de trabalho? - Às seis e meia. Antes de jantar, alguns aproveitam para fazer outra visita de quinze minutos ao Santíssimo.
- E depois do jantar? - Fazem as orações que fecham o dia cartusiano e vão dormir.
- A que horas? - Até as oito da noite.
- E a que horas se levantam? - À meia-noite, para celebrar as Matinas com os Padres.
- E voltam a dormir? - Sim, até as duas da manhã, antes dos Padres, pois não são obrigados a assistir às Laudes, salvo em dias festivos.
- E ao chegar na cela, o Irmão volta a dormir? - Não imediatamente. Ao chegar na cela, dedica quinze minutos à chamada “oração materna”, que o faz tomar consciência de seu papel de intercessor. Prostrado no chão, expõe lentamente ao Senhor as necessidades da Igreja e do mundo. Ninguém fica excluso das intenções dessa oração: desde o Papa até o último pecador oculto na noite enquanto descansam seus irmãos, os homens. 1
4. OS ASPECTOS MAIS CARACTERÍSTICOS DA ESPIRITUALIDADE CARTUSIANA
A. Deus só
- Diferentemente das ordens religiosas de vida apostólica, que se dedicam à pregação, ao ensino, ao cuidado dos enfermos etc., a que se dedica a Ordem Cartuxa? - Nossa missão na Igreja é o que tradicionalmente se chama de “vida contemplativa”.
 - O que é, então, a vida contemplativa para um cartuxo? - Um mistério que se aproxima do mistério de Deus, de cuja grandeza e incompreensibilidade ela participa de certa forma. Mais além do cuidado pelas coisas do mundo; mais além, inclusive, de todo ideal humano e da própria perfeição, o monge cartuxo busca a Deus. Ele vive só para Deus, dedicado de corpo e alma a louvar a Deus. Este é o segredo da vida puramente contemplativa: viver só para Deus, não desejar mais que a Deus, não querer saber de outra coisa senão de Deus e não possuir mais que a Deus. Aquele que reconhece a Deus como o Bem supremo, compreederá o valor dessa vida de consagração radical que é a vida do cartuxo.
- É um lindo ideal. - É, mas esse lindo ideal exige um clima adequado para acontecer.
- E qual é o clima adequado? - As nossas usanças e observâncias criam esse clima e revelam assim o seu sentido. Consideradas isoladamente, sem relação com o seu fim, seriam incompreensíveis e não passariam de um monte de práticas estranhas. - Vejamos...
B. A solidão e o silêncio
- Qual é a palavra que mais se repete na Cartuxa? - Se alguém se desse ao trabalho de buscar o vocábulo mais repetido nas páginas de nossos Estatutos, seriam certamente as palavras “solidão” e “silêncio”.
 - Sua espiritualidade têm algum slogan? - A espiritualidade cartusiana é a espiritualidade do deserto.
- É uma tradição? - Assim afirmam nossos Estatutos quando dizem: “Os fundadores de nossa Ordem seguiam uma luz vinda do Oriente, a dos antigos monjes que, consagrados à solidão e à pobreza de espírito, povoaram os desertos numa época em que a lembrança ainda viva do sangue derramado pelo Senhor ainda ardia em seus corações”.
- Essa espiritualidade lhes é própria, ou tem fundamentos em outro lugar? - A Sagrada Escrutura e a tradição da Igreja oferecem argumentos para colocar a vida solitária acima de qualquer outra vocação.
- Apesar de reconhecer que a solidão é somente um meio, vocês lhe tributam um verdadeiro culto. Por quê? - Porque, como dizem muito bem os nossos Estatutos, citando Dom Guigo, quarto sucessor de são Bruno no eremitério Chartreuse, a solidão é o meio mais apto para a união com Deus: “o gosto pela salmodia, a aplicação à leitura, o fervor da oração, a profundidade da meditação, a elevação da contemplação e o dom das lágrimas, não podem encontrar ajuda mais poderosa que a solidão”.
- Então essa importância que a Cartuxa dá à solidão tem alguma repercussão na estrutura jurídica da Ordem? - Toda a legislação da Cartuxa tende a conservar e favorecer essa solidão e esse silêncio, que são os traços mais marcantes da espiritualidade do deserto e da espiritualidade cartusiana.
- Pode me indicar alguns aspectos de seus Estatutos sobre a vida de solidão do cartuxo? - Os Estatutos proibem ao cartuxo, por exemplo, pregar, confessar e fazer acompanhamento espiritual, coisas em si excelentes, mas que não estão na linha da vocação eremítica.
 - Tanta rigidez não poderia assustar a Igreja Católica contemporânea? - Ao contrário, isto é precisamente o que a Igreja pede hoje ao cartuxo. O Concílio Vaticano II disse claramente que o dever dos contemplativos é “ocupar-se só de Deus na solidão e no silêncio... por mais urgente que seja a necesidade de apostolado ativo” (Perfectae Caritatis, 7). Talvez seja “silêncio” a palavra de que mais necessita o mundo hoje.
 - Vocês, os cartuxos, defendem sua vocação contemplativa com a solidão, mas como conseguem se livrar da invasão dos meios de comunicação social? - Para evitar esse perigo, na Cartuxa não há rádio, nem televisão, e os Estatutos recomendam prudência com as leituras profanas.
- Então vocês vivem alheios ao mundo de hoje? - Nossos Estatutos nos falam da necessidade de “viver alheios aos barulhos do século”, como algo fundamental para a vida solitária. Mas cabe ao Pe. Prior o cuidado de transmitir aos monges as notícias que não seria bom que ignorassem, para que a comunidade possa apresentar ao Senhor as necessidades de todos os homens.
- Essa observância dura e peremptória não corre o risco de materializar a vida da Cartuxa? - Toda a nossa legislação sobre o silêncio e a solidão constitue a letra de nossas observâncias. Nelas o monge vê refletido o clima propício para a nossa vocação eremítica, mas sabemos muito bem que isso não é tudo e nem o principal.
 - Em uma palavra, o que é necessário para um cartuxo? - Que se enamore da solidão para vivê-la em intimidade com o Senhor.
 - O cartuxo que é fiel a esses princípios é feliz? - Sim, porque o monge que é fiel à sua vocação comrpreende que Deus o chama a uma solidão e a um silêncio de espírito cada vez mais profundos.
C. O repouso espiritual
- Solidão e silêncio cada vez mais profundos? - Sim, a solidão exterior cria o ambiente propício, necessário para que se possa desenvolver uma solidão mais perfeita, a solidão interior.
 - Em que consiste a solidão interior? - Em um processo espiritual pelo qual a memória, o entendimento e a vondade vão perdendo o interesse e o gosto pelas coisas passageiras. Por sua vez, Deus começa a ser percebido como o único que pode saciar as profundas aspirações do espírito. Só quando o cartuxo descobre, admirado, que enfim é só Deus que o preenche, começa a ser um autêntico “monge” contemplativo. Esta descoberta produz uma sensação de libertade e gozo interior que é difícil expresar com palavras.
 - Esta experiência é algo típico e exclusivo da Cartuxa? - Se trata de um processo espiritual já descrito na espiritualidade dos antigos monges do deserto, tal como Antão, Pacômio, Evágrio, e em geral nos místicos cristãos de todos os tempos.
 - Como vocês, cartuxos, o concretizam? - Acho que todo esse processo espiritual poderia ser resumido em uma palavra muito cara a nosso pai São Bruno e aos primeiros cartuxos: ”quies”, isto é, o repouso espiritual.
- Se entendo bem, isso significa que todo o ambiente da Cartuxa tende a isso? - A um clima de solidão e silêncio que elimina o barulho perturbador dos desejos e imagens terrenos. Se trata de uma atenção tranquila e sossegada da mente em Deus, favorecida pela oração e pela leitura pausada. Chega-se assim a essa “quies”, ou “repouso” da alma em Deus. Esse repouso divinizado, simples e gozoso faz com que o monge toque de alguma forma a beleza da vida eterna.
- Que grau de contemplação é esse? - Digamos que a “quies”, é a meta do cartuxo, é onde anela chegar.
D. Fidelidade à Cruz
- Vocês têm a fama de serem muito penitentes. - Sobre o tema das penitências da Cartuxa, como sobre tantos outros, existem as ideias mais estranhas. Para nós as penitências são simples “meios para aliviar o peso da carne para poder seguir o Senhor mais prontamente”, como dizem os nossos Estatutos.
- Mas você sabe que hoje em dia a penitência individual não é considerada um meio infalível... Vivemos em um tempo de comprensão e diálogo. - É, nos dias de hoje, a penitência e, em geral, tudo o que supõe sacrifício e abnegação, é malvisto; costuma-se falar disso com notável inconsciência. Todo o mundo acha razoável que um esportista se prive de muitas coisas boas e submeta o seu corpo a duros treinamentos.
- Vocês, monges cartuxos, desejam viver segundo o “homem novo” da Sagrada Escritura. Pode me dizer precisamente quais são as penitências básicas? - A separação do mundo, a ausência de notícias e de passatempos... São privações que talvez custem mais aos noviços. Tem também o sono dividido em dois tempos, a simplicidade no vestir, a frugalidade na alimentação...
 - O que vocês comem? - Ao meio-dia almoçamos à base de hortaliças, peixe ou ovos e fruta.
- Quando não fazem jejum, o que jantam? - Nos dias em que não jejuamos, o jantar consiste em dois ovos, ou o seu equivalente em peixe, e fruta.
- Quando fazem jejum? - Os jejuns começam no dia 15 de setembro, um dia depois da Exaltação da Cruz, e duram até a Páscoa, isto é, uns sete meses.
- Em que consiste o jejum? - Em uma só refeição ao meio-dia. À tarde se faz um lanche, geralmente pão e uma bebida.
 - Na sexta-feira vocês têm um regime especial? - Todas as semanas fazemos uma abstinência, em que tomamos apenas pão e água. Geralmente é feita na sexta-feira, em memória da Paixão do Senhor, mas se na semana ocorre alguma festa, essa abstinência é feita nas vésperas da festa.
- Vocês comem carne? - Tradicionalmente, desde os tempos de São Bruno, jamais se come carne, nem se serve carne a ninguém nas Casas da Ordem.
- Os aspirantes e os noviços também são obrigados a seguir todas essas páticas de jejum? - A adaptação ao nosso gênero de vida requer tempo e prudência. Por isso, os aspirantes e os noviços se iniciam progressivamente em nossos usos e costumes, sob a vigilância do Pe. Mestre de noviços, que os aconselha.
- E os doentes? - Os nossos Estatutos dizem: “Se em alguma circunstância ou com o passar do tempo um monge percebesse que alguma de nossas observâncias supera as suas forças e, em vez de impulsioná-lo, o atrapalha na sequela de Cristo, então, com confiança filial, trate do assunto com o seu prior e com ele decida a medida oportuna para si, ao menos temporariamente”.
- É permitido fumar? - O tabaco é proibido “por motivos de abnegação e pobreza”.
 - Resumindo... - São esses os aspectos mais marcantes da ascese cartusiana. A Ordem os julga suficientes e, com um grande senso de prudência, ordena formalmente que “ninguém se entregue a práticas de penitência fora dos indicados nos Estatutos sem o conhecimento e a aprovação da parte de seu Prior”. A Cartuxa herdou de São Bruno sua moderação e seu equilíbrio. Em sua carta ao amigo Raul, ele descreve com entusiasmo a amenidade das paisagens da Calábria e, se seu amigo se admirara dessas expansões menos espirituais, explica: “a nossa frágil mente, fatigada por uma austera disciplina e pela aplicação às coisas espirituais, muitas vezes com essas coisas encontra alívio e readquire vigor. Na verdade, o arco sempre tenso perde a força e torna-se menos apto para o seu ofício”.
 - Para concluir este tema, quais são os principais traços do espírito cartusiano? - A união com Deus, tender à oração contínua na solidão e no silêncio, a “quies” (repouso contemplativo), a simplicidade de vida, a austeridade: estes são os traços principais do espírito cartusiano, que coincidem com as linhas mestras da espiritualidade do deserto.

5. AS PECULIARIDADES DA CARTUXA
A. O cartuxo, um eremita integrado em uma família monástica.
- De tudo o que falamos até agora, posso perceber que o que é mais característico na vida do cartuxo é viver na solidão e no silêncio. Eu li em algum lugar que dentre todas as Ordens monásticas, pelo menos no Ocidente, vocês são a que vive mais a vida eremítica mais puramente. - É provável. Já lhe disse que o cartuxo é antes de mais nada um eremita que passa quase o dia todo em sua cela ou ermo. Esse é o traço marcante da nossa identidade e o nosso carisma específico.
 - Mas esse carisma de solidão da Cartuxa não corre o risco de talvez obscurecer aspectos importantes e evangélicos como o amor e o serviço ao próximo? Acho que foi Santo Agostinho que disse: “Como posso lavar os pés dos meus irmãos se vivo trancado em um ermo?”. - Essa frase é de São Basílio, pai do monaquismo oriental. Mas não podemos esquecer que, na Igreja, como dizia São Paulo, os membros não têm todos a mesma função. “A vida dos cartuxos é consagrada ao louvor de Deus e à oração de intercessão por todos os homens”.
- E daí? - Daí que, embora o nosso carisma específico não preveja a assistência dos enfermos, nem a pregação, nem o ensino dos jovens, a Cartuxa não é uma instituição puramente eremítica; a vida solitária é equilibrada por uma parte importante de vida comunitária que também é parte essencial do nosso carisma.
- Ah, é? - É, e isso desde o começo da Ordem. Apesar da forte atração que São Bruno tinha pelo deserto, é certo que ele não foi um solitário do estilo tradicional, como os eremitas Paulo, Antão e Bento o foram: estes iniciaram a vida monástica vivendo completamente sozinhos no deserto. E São Bruno? Nunca esteve sozinho, pois o acompanhava sempre um grupo de amigos que compartilhavam o seu ideal.
- Esse é um detalhe interessante. - Para nós é importante viver como eremitas em nossas celas, mas formando ao mesmo tempo uma família unida no interior do mosteiro. No passado se usava o termo “família” para designar as comunidades cartusianas, por causa do número reduzido de seus membros. Hoje os nossos Estatutos fazem o mesmo.
- Como esse aspecto “familiar” é vivido na prática? - Por exemplo: somos nós mesmo que cuidamos de nossos enfermos e idosos em tudo, acompanhando-os sempre quando necessário, ainda que para isso tenhamos que sair da cela. E o fazemos com carinho, convencidos de que o amor fraterno está sobre qualquer outra consideração e valor espiritual.
- Começo a entender. E percebo até que suas recreações e passeios comunitários têm também algo a ver com isso da vida em família. - Acertou em cheio. A recreação do domingo e o Passeio semanal dão à vida eremítica da Cartuja um ambiente familiar, humano e evangélico que nos ajuda a conservar um saudável equilíbrio.

B. A cela
- Você citou várias vezes a “cela” como se fosse uma coisa especificamente cartusiana. Como é a cela do cartuxo? - De todas as dependências do mosteiro, as celas do grande claustro são a coisa mais característica da Cartuxa. Basicamente, as celas de todas as cartuxas são compostas dos mesmos elementos, mas a disposição interna pode variar.
- Pode me descrever brevemente as celas? - As celas são interligadas pelo grande claustro, que é um longo corredor, geralmente em forma de quadrilátero. A palavra “cela”, que os cartuxos usam desde a origem da Ordem para designar seus ermos, evoca espontaneamente a ideia de um único cômodo. Na verdade, a cela do cartuxo é uma pequena casa de um ou dois pavimentos, em cujo espaço há lugar para uma sala de estudos, um oratório, uma pequena oficina de carpintaria e até para uma horta ou jardim. Sua relativa amplitude se explica pelo gênero de vida especialmente eremítico da Ordem: o cartuxo passa a maior parte de sua vida na cela. Nossos Estatutos dizem que a cela é para o cartuxo como a água para o peixe e o aprisco para as ovelhas. Uma letra do alfabeto talhada em madera e pregada em cada porta distingue umas celas das outras. O primeiro cômodo da cela é um amplo saguão presidido por um crucifixo e uma imagem de Nossa Senhora. A seus pés, de joelhos, o cartuxo reza uma Ave Maria sempre que entra na cela. Por isso, esse cômodo se chama “Ave Maria”. Perto da porta há um armário-mesa com os utensílios necessários para as refeições. Em um canto pode-se ver uma portinha, um guichê numa parede, no qual o Irmão despenseiro deposita a comida que o monge retirará no momento de tomar sua refeição. O cartuxo come em sua cela; somente nos domingos e solenidades almoça com a Comunidade, no refeitório. Da “Ave Maria” se passa a um cômodo bem iluminado que serve de oficina de carpintaria. Para trabalhar a madeira, dispõe de um torno a pedal, de um banco de carpintaria e das ferramentas mais comuns. Em um extremo da oficina, uma porta nos conduz à horta/jardim, que cada um cultiva segundo os próprios gostos. O cuidado do jardim serve tanto como exercício físico, como uma agradável recreação e distensão espiritual. Voltando à “Ave Maria”, uma escadaria nos conduz ao cômodo principal, de uns seis metros por cinco. É iluminada por uma grande janela que se abre para o jardim. Eis a mobília: uma mesa e uma cadeira de madeira; uma estante de livros; ao fundo, presidindo a habitação, um pequeno oratório com um reclinatório para as orações; ao lado do oratório, uma humilde cama; e junto à porta de entrada, outra porta que dá para o banheiro. Essa é a cela do cartuxo. Alí ele passa os seus dias, os seus anos, em silêncio, a sós com Deus.
- A cela é um céu ou um purgatório? - O primeiro, para quem recebeu o dom precioso dessa vocação que é viver só, para Deus. Os monges de todas as épocas experimentaram e cantaram a beleza da vida solitária na cela, onde passam seus dias na intimidade do Senhor. Os nossos Estatutos se unem a essa longa tradição monástica dizendo: “Alí Deus e seu servo se entretêm em frequentes conversas, como fazem os amigos. Alí, a alma fiel se une ao Verbo de Deus, a esposa ao Esposo, a terra ao céu, o humano ao divino”.
- Ok, mas devido ao ambiente cheio de barulho, de imagens e distrações característico da nossa sociedade, não fica difícil para os jovens adaptar-se a uma vida de silêncio e de solidão tão estrita como a que se vive na Cartuxa? - Normalmente a cela exige para o noviço um processo mais ou menos longo e custoso de adaptação – ou melhor, eu diria de desintoxicação – para fazer silêncio em seu interior, acalmar a fantasia, os afetos, os sentidos, até acalmar o espírito, concentrar-se no essencial, nos valores transcendentes que, em definitiva, são os únicos que podem saciar os desejos mais profundos da alma.
- Que conselhos daria a um jovem que chega do mundo e começa a viver a sua nova vida na cela, uma vida tão diferente da que viveu até então? - O Pe. Mestre de noviços lhe indicará prudentemente os horários precisos para ocupar seus dias de forma organizada e útil na leitura, na escritura, na salmodia, na oração, na meditação, na contemplação e no trabalho. Ensinar-lhe-á também a lutar contra as tentações de desânimo, a habituar-se pouco a pouco a uma tranquila escuta do coração e a deixar que Deus entre em seu íntimo. Acima de tudo, aconselhar-lhe-á a confiar no Senhor: Ele lhe deu essa vocação de predileção e lhe dará também as graças necessárias para levá-la a bom termo.

C. Os horários da Cartuxa:

Matinas e Laudes
- Os horários da Cartuxa são um pouco estranhos, não? - É, são um tanto originais.
 - A que horas vocês vão dormir? - Às 19h30min ou 20h. No verão, a essa hora, o sol ainda está acima do horizonte.
- Deitar para dormir às 19h30min ou 20h! E a que horas se levantam? - Às 23h30min da noite. A essa hora o sino da igreja chama para a oração.
 - Então o dia do cartuxo começa às 23h30min da noite? - Isso.
- E o que fazem os cartuxos a essa hora? - Iniciam a sua missão de louvor rezando as Matinas do Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria.
- Já começam bem o dia. - À meia-noite e quinze o sino toca de novo.
 - Pra quê? - Para que a comunidade se dirija à igreja. Então vão todos caminhando pelos claustros solitários e pouco iluminados.
- E chegados à igreja? - Colocam-se os livros de coro sobre as estantes, apagam-se as luzes e entra-se em um profundo silêncio. Ao sinal do Prior, inicia-se o canto das Matinas.
- O que são as “Matinas”? - As Matinas são compostas por duas partes chamadas “noturnos”, com seis salmos cada um. Nos dias festivos há um terceiro noturno de três cânticos. A salmodia é grave, quase lenta. Ao final de cada noturno há leituras da Sagrada Escritura ou dos Padres da Igreja, e a cada leitura segue o canto de um responsório. Nos domingos e em dias de festas importantes, as leituras e seus respectivos responsórios são doze; nos dias de semana há só uma leitura (no verão europeu) ou três (no inverno europeu). O canto Te Deum e a leitura do Evangelho do dia concluem as Matinas de doze leituras; os dias feriais terminam com as preces de intercessão pelas necessidades da Igreja e do mundo. Ao final das Matinas se guardam alguns minutos oração silenciosa e então inicia-se o Ofício das Laudes. Depois, em suas celas, os Padres rezam as Laudes do Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria e se deitam sem demora.
 - A que horas? - Isso depende da duração os Ofícios. Frequentemente às 3h da manhã.
 - E por que tudo isso? - Porque o cartuxo tem uma predileção por essas horas de louvor noturno, quando o silêncio da noite convida a uma oração mais fervorosa.
A manhã
 - E a que horas vocês acordam de novo? - Às 6h45min. Os Irmãos que não participam das Laudes se levantam uma hora antes. Às 7h os Padres rezam a Hora Prima, seguida de um momento de meditação.
- E a Missa? - Às 8h nos reunimos na igreja para a celebração da Missa conventual. Essa Missa é sempre cantada, e dura aproximadamente uma hora. Nos domingos e nas solenidades, a Hora Terça precede a Missa, que nos dias festivos costuma ser concelebrada.
- E quando acaba a Missa conventual? - Os Irmãos, em suas celas, fazem quinze minutos de ação de graças pela Missa, e depois trabalham até a Hora Sexta. Os Padres costumam celebrar a Missa recitada em umas capelas destinadas a esse fim. De volta à cela, rezam Terça e reservam boa parte do tempo à leitura espiritual.
 - Mas vocês não tomam café da manhã? O que fazem até a hora do almoço? - Os monges em formação estudam e se exercitam em algum trabalho manual: carpintaria, encadernação, pintura, cuidado do pequeno jardim/horta de sua cela...
 - A que horas almoçam? - Às 11h30min ou ao meio-dia, depois de rezar a Hora Sexta. Almoça-se solitariamente na cela, exceto nos domingos e nas solenidades. Normalmente o almoço é depois da oração do Angelus.
- E depois do almoço? - Até às 13h, o cartuxo costuma se distrair um pouco no jardim, fazendo algum trabalho, caminhando...
 - E depois disso? - Os monges rezam a Hora Nona e o tempo até às Vésperas é dedicado ao trabalho manual, à leitura, ao estudo e à oração. Os Irmãos voltam a seus trabalhos em suas respectivas “obediências” ou oficinas da cartuxa: a cozinha, a alfaiataria, a despensa, o campo, a marcenaria, obras...
 - Esses horários não mudam nunca? - Nos domingos e solenidades a Hora Nona é cantada na igreja e logo após os monges se reúnem na sala capitular, onde escutam uma leitura do Evangelho ou dos Estatutos. De lá vão à horta, ou, se o tempo não o permite, ao claustro, onde têm um encontro fraterno.
A tarde
- Como vocês passam a tarde? - Todos os dias às 16h se cantam as Vésperas na Igreja. O Ofício das Vésperas dura meia hora e é composto por um hino, quatro salmos com suas respectivas antífonas, uma leitura breve, um responsório, o Magnificat, e termina com as preces de intercessão e o canto da Salve Regina, cujos texto e melodia são ligeiramente diferentes dos do rito romano. Depois das Vésperas o tempo é consagrado aos exercícios espirituais.
 - A que horas vocês jantam? - O jantar, ou, nos dias de jejum, o “lanche”, é geralmente às 17h45min.
- E o que fazem depois do jantar? - Nesse momento sobra um tempo livre para a distensão, seja no jardim, seja pela cela.
- Quando e como acaba o dia do cartuxo? - Às 19h o sino toca o Angelus da tarde. Os monges podem prolongar a oração ou a leitura espiritual ainda por uma hora, mas é aconselhável não demorar para deitar-se. O dia acaba com a oração de “Completas”, Hora do Ofício na qual se agradece a Deus por todas as graças recebidas durante o dia e se lhe suplica proteção para a noite que está chegando. Assim termina, entre as 19h30min e as 20h, o dia do monge cartuxo.
Horários em função da vida litúrgica.
- Suponho que os seus horários sejam estabelecidos em função da vida litúrgica. Certo? - Isso mesmo. As Matinas no coração da noite, a Missa conventual de manhã cedo e as Vésperas à tarde são os momentos fortes do dia, nos quais os monges deixam as suas celas para ir à igreja.
- Que lugar ocupa a liturgia na vida do cartuxo? - A nossa vocação é ser com o Cristo e no Cristo um louvor a Deus Pai, através do nosso ministério de louvor e de intercessão. A Eucaristia, celebrada e cantada em melodias gregorianas a cada manhã em comunidade, é, segundo os nossos Estatutos, “o centro e o cume da nossa vida”.
- E o Ofício Divino? - O cartuxo reza boa parte do Ofício divino sozinho na cela, mas sabe bem que a sua voz não é uma voz individual, isolada, perdida na imensidão do mundo, mas que é a mesma oração de Cristo e de toda a Igreja. Na liturgia, o Cristo, na qualidade de nossa Cabeça, reza em nós, de modo que nele nós podemos reconhecer a nossa voz, e em nós a sua.
 
6. As origens da Ordem Cartuxa
- Antes de terminar, faço-lhe uma pergunta elementar: o que é a Cartuxa? - É uma Ordem monástica nascida no final do século XI, um caminho evangélico que percorreu mais de nove séculos.
 - Quem é o fundador? - Mais que um “fundador”, eu diria o “iniciador” deste gênero de vida foi São Bruno, nascido em Colônia, Alemanha, por volta do ano 1030. Foi estudante, depois cônego e reitor da famosa escola catedralícia de Reims, França. Com seis companheiros, retirou-se em um lugar solitário e escondido nos Alpes do Delfinado, o maciço de Chartreuse (Cartuxa), a uns trinta quilômetros de Grenoble. A casa geral da Ordem se encontra ainda hoje naquele lugar.

- Porque vocês dizem que São Bruno não foi o fundador da Ordem, mas o seu iniciador? - Porque, na verdade, ele não escreveu nenhuma regra monástica, nem sequer permaneceu por muito tempo no eremitério de Chartreuse. Solicitado pelo Papa Urbano II, que havia sido seu discípulo em Reims, teve de ir a Roma e acompanhar o Papa em seus deslocamentos pela Itália meridional. Urbano II compreendeu o carisma de São Bruno, que era profundamente atraído pela vida eremítica, e autorizou que se retirasse novamente em um lugar solitário da Calábria, em Santa Maria da Torre. Lá fundou com outros companheiros um eremitério similar ao de Chartreuse. Alí morreu em 1101, e alí repousam seus restos mortais. Mas foi a primeira fundação da Cartuxa, nos Alpes franceses, que conservou o seu espírito e, com o passar dos anos, se converteu na Ordem monástica dos Cartuxos.